
É notório o fato de que sempre que começamos um relacionamento tudo vai a mil e uma maravilhas. Tudo o que o ente querido diz, pense ou faz é bem recebido, é visto com bons olhos. É um momento muito gostoso da nossa vida, gera a sensação de que: “desta vez será eterno”. No entanto passado algum tempo, dias, meses ou às vezes anos as coisas começam a mudar. É como se perdêssemos o foco e tudo agora parece nebuloso, cheio de segundas intenções, enxergamos tudo com outros olhos. Começamos a ver segundas intenções em tudo o que outro fala, pensa ou faz. Os elogios, as brincadeiras, os sorrisos tudo parece perder o sentido real e sempre se apresenta como o véu de algo malicioso, escondendo a verdadeira essência.
Mas na verdade a única coisa que mudou foi você. A sua forma de ver as coisas, você perdeu o foco e está agora concentrado naquilo que não lhe agrada, como se buscasse uma desculpa para justificar a sua vontade inconsciente de sair daquele relacionamento. Creio que quando isso acontece o relacionamento já está prestes a acabar, a não ser que aja uma mudança na forma de ver e surja um novo foco, ele irá se findar breve.
Isto acontece não só na área do relacionamento afetivo, mas sim em todas as áreas de nossas vidas, seja profissional, seja familiar ou social. Sempre que começamos algo novo é empolgante, é prazeroso enfim, é novo! Com o tempo isso passa e novamente vem a sensação: “será que escolhi certo? Isso é mesmo para mim? Não seria melhor se tivesse escolhido aquele outro?”
Não digo que tal questionamento seja de todo ruim, de forma breve e moderada ele pode ajudar o indivíduo a melhorar sua determinação e se focar ainda mais, principalmente quando ele vê, através desta comparação, a boa escolha que fez.
O problema maior é quando, embora não tenhamos motivos reais, acreditamos fielmente que não estamos felizes. Uma frase do DeRose expressa bem isto: “o que é pior: ser infeliz ou estar convencido disto?” Neste momento buscamos em qualquer acontecimento, por mais famigerado que seja, respaldos para reafirmar a insatisfação. É como se começássemos a criar um muro de proteção, uma barreira, em torno de nós mesmos e não permitindo que nada externo adentre por ele.
São, portanto, dois processos que ocorrem;
Perda do foco: não estamos mais focados em fazer dar certo, seja o relacionamento, seja o profissional ou o que for. É como se a vista começasse a falhar, assim passamos a ver tudo nebuloso. Neste ponto ainda há solução, podemos reverter o processo educando nossa mente e buscando agora os pontos positivos. Deixando de lado qualquer coisa que nos faça perder o foco. Se for o relacionamento, deixando de lado as opções que possam existir de outros relacionamentos, se for no profissional guardando para segundo plano as outras oportunidades.
Quando temos duas opções sempre titubiamos e na dúvida não escolhemos nenhuma delas. Napoleão certa vez nos mostrou bem a questão de foco; tendo desembarcado toda sua frota em uma pequena praia na ilha de ..... Napoleão e sua equipe de comando percebem que o número de soldados inimigos é quase o quíntuplo dos seus. Todos sugeriram que se retirassem voltando aos seus navios para levantar uma maior frota e então retornar. Napoleão considerando que aquela batalha era de fundamental importância manda aos seus subordinados que queimem todos os navios. Quando os soldados vêem os navios queimando se desesperam e então seu líder os diz: “Agora não temos como voltar, só podemos lutar e lutaremos até vencer.” E no final eles venceram.
Este é o problema das diversas opções, não sabendo por qual escolher nos enrolamos e perdemos ótimas oportunidades em nossas vidas, e às vezes só tomamos consciência disto anos depois.
Repito que aqui ainda há solução, mais o primeiro passo é deixar de lado as outras opções e focar onde estamos. Buscar as mesmas emoções e pensamentos que nos levaram a chegar até ali, reforçar o que há de bom onde estamos e usar o poder da nossa mente a nosso favor.
Isolamento: Neste momento acredito que já não há mais soluções. Estamos totalmente dispersos, buscamos agora como uma agulha no palheiro fatos que nos convençam de que não dará certo. Neste momento levantamos as barreiras e nem mesmo Jó conseguirá derrubá-las. Qualquer ato será sempre visto de forma nebulosa, nosso foco será em achar os problemas e não as soluções.
No Sámkhya, uma antiga filosofia teórica da Índia dos tempos pré-classico e clássico, nos ensina dois conceitos que podem nos esclarecer melhor sobre isto.
O primeiro são os Vásanas, os nossos condicionamentos. Funcionam como se fossem uma trilha que acessamos quando repetimos um comportamento pré-determinado e sempre que o repetimos deixamos ainda mais forte sua impressão nos levando a acessá-lo cada vez mais, pois é o caminho que se torna mais nítido, a resposta comportamental que fica condicionada a reagir de imediato a cada estímulo dado às nossas emoções.
Assim, se repetimos o feito de buscar encontrar o que não nos agrada, estamos reforçando o comportamento de reagir de maneira negativa a cada situação, sendo assim entramos em contenda sempre.
O segundo são os Sanskára que são as impressões. A cada vez que vivenciamos algo este nos deixa uma impressão. Comparando podemos dizer que o vásana é a trilha deixada por uma bola ao rolar pela superfície lisa de uma área e sanskára é a impressão que a bola deixa onde ela para, aquela marca redonda e mais profunda.
Agora sim, podemos entender melhor. Cada vez que pensamos, sentimos ou agimos de forma negativa criamos uma marca (sanskára) em nosso inconsciente e quando expostos a uma experiência semelhante somos condicionados a caminhar pela trilha ( vásana) que aprendemos a trilhar quando vivenciamos esta experiência no passado. Assim entramos em um círculo existencial (Sansara) como uma bola de neve que cresce a cada giro que dá sobre si mesma.
A única forma de sairmos dela é tomando consciência de sua existência, segurando o impulso de agirmos de forma condicionada quando imposto a uma situação semelhante e assim aos poucos irmos criando novas trilhas e novas impressões.
3 comentários:
Uau, Pedro, esse post é muito explicativo! Só em lê-lo uma única vez já gera um monte de assuntos para se refletir!!
18 de maio de 2010 às 09:47Muito legal.
Grande abraço de Brasília!
Luciano Vieira
Realmente basta ler e refletir um pouco para ver o quanto nos deixamos limitar por nossos condicionamentos... Durante esta semana, depois de discutirmos este assunto na nossa turma de formação, pude observar melhor essas atitudes e suas consequências no meu dia-a-dia... O melhor é perceber que podemos mudar de caminho e descobrir novas possiblidades...
19 de maio de 2010 às 19:27É um privilégio aprender cada dia mais com você e nossa egrégora...
Abraços
Que bom saber que o texto fez vocês refletirem. Sem dúvida é uma questão que merece um tempo para nossa reflexão. Quando observamos nossas emoções e sentimos podemos moldá-los de acordo com o que desejamos.
20 de maio de 2010 às 06:34Juntos aprendemos cada dia mais!
beijos
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