
Um texto lindo sobre o amor...
Na cultura ocidental costuma-se compreender o amor apenas pelo prisma do sentimento. Ele é visto como a emoção que se desperta em uma pessoa por outra. Embora acredite eu, não ser o sentido correto desta palavra, é esta a forma pelo qual grande parte das pessoas o vê.
No entanto no Sânscrito, língua morta da Índia antiga existe uma palavra interessante: BHÁVA.
A palavra Bháva é traduzida como sentimento, amor, conduta, inclinação da mente. Nesta tradução percebemos um fato curioso, a mesma palavra do Sânscrito indica o sentimento amor e a ação que este leva; a conduta por traz do sentimento.
No entanto, quando falamos do Bháva estamos indo além, falamos de um sentimento que leva a agir de maneira diferente. Uma ação carregada de entrega e devoção.
O Bháva não é apenas uma emoção. Emoções são modificações corpóreas, como perturbações que infligem a consciência e a modifica temporareamente. Raiva, tristeza, medo, inveja, paixão, prazer, são emoções. Bháva é muito mais, é um sentimento que se mantém, que rege a vida e conduz a uma maneira peculiar de ser e estar.
O pré-requisito para alcançar o Bháva é a auto-entrega (vairágya), só quando nos deixamos estar, quando deixamos de lado o ego inflado que nos consome e percebemos o todo como parte de nós mesmos podemos vivenciar este estado.
Este sentimento pode ser alcançado há qualquer momento e sobre qualquer pessoa. Ele é um sentir profundo, um amar sem limites. No entanto, poucos em nossa sociedade o conhece pois, ele exige um entregar total, um abrir-se por inteiro que é quase proibido em nossa cultura patriarcal e repressora.
Nos acostumamos a respirar curto e rápido, a pensar segundo padrões que nos mantem sempre à margem de nossa mente e também a sentir de forma superficial. Este comportamento é reflexo de anos e anos de repressão que foram gerando dúvidas e medos a cada tentativa de entrega mal sucedida. E neste ato de insucesso, nos habituamos a deixar de amar, de se entregar e aos poucos matamos o amor que residia em nós. Não o amor por uma ou outra pessoa, mas um amor mais forte, universal, o amor por tudo e por todos.
Como disse Georg Feurstein:
“O amor, a beatitude, é uma força que surge dentro de nós e, em sua superabundância característica extravasa do nosso ser. Quando amamos alguém, nosso amor maior chega a todas as pessoas e todas as coisas, não se dirige somente à pessoa amada. Abraçamos a todos os seres e esse abraço amoroso transmite aos outros o mesmo sentimento que nos move."
Este sentimento não deve ser entendido como um entusiasmo temporário que leva o indivíduo a se esforçar e querer se superar. O momento mágico que nos faz ver a vida com um brilho irradiante e extraordinário. Mas que, em pouco tempo de esfria, e ao esfriar faz a vida parecer novamente sombria e assim perdemos também a vitalidade vibrante que deixa tudo muitíssimo atraente.
Ele, o Bháva, é um sentimento puro, profundo que nasce no âmago do ser e se irradia, transcende o corpo e contagia a tudo e todos com o poder transformador da ação do amor. Quando o sentimos, sentimos por todas as coisas e por todos, não somente pela pessoa amada. Ele se mostra na brisa suave que toca a pele, no inspirar o ar que penetra pelos poros com um prazer indescritível, no murmúrio do mundo exterior, no andar, no falar, no trabalhar, em fim, em tudo na vida. Deixamo-nos abraçar pelo mundo e o transmitimos o amor incondicional do Bháva. É este amor universal é expressão perfeita do Bháva. Amor que transforma nossas vidas e a conduz a uma vida mais plena, repleta de satisfação e auto-realização.
Não devemos ter a ilusão de que conseguiremos viver o tempo todo plenos de amor. Isto é uma ilusão, a vida é feita de altos e baixos. Mas é a tentativa de extrair amor de todas as coisas, o compromisso permanente de buscar sempre o melhor, que direciona as nossas vidas.
Este amor ou Bháva é uma ação, uma conduta. Não adiantará buscar apenas sentir o Bháva, antes de mais nada, é preciso agir com amor. O agir com amor está nas palavras, gestos e ate pensamento que você direciona a outras pessoas e objetos.
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