
O que vem a sua cabeça quando você pensa em yôga? Se você é como a maioria das pessoas imaginará uma velhinha sentada “meditando”, ou algo parado em que se paga para ficar deitado ouvindo musiquinha de água e a voz mansa de uma senhorinha, enquanto você quase dorme.
Infelizmente essa imagem ficou impregnada na cabeça das pessoas graças ao péssimo trabalho desenvolvido por ensinantes leigos durante vários anos dentro do Brasil. São pessoas que travaram contato com a filosofia do Yôga por alguns meses e se julgaram aptos a saírem ensinando. O que fazer para conseguir alunos? Vender o que eles querem comprar? “Se quiserem relaxamento vamos vender, se quiserem terapia hormonal também temos” e por ai vai. Já percebeu que este mesmo fenômeno vem acontecendo com várias outras atividades, tais como a dança, a capoeira e até mesmo com as modalidades de ginástica dentro das academias? A cada dia se inventa uma mudança, misturam duas ou mais, utilizam conceitos e técnicas de uma modalidade na outra, simplificam para satisfazer o cliente e por ai vai. O difícil é encontrar a identidade definida e concreta de cada modalidade. Não estou questionando a necessidade de variações mais simples para iniciantes, e sim o ato compulsivo por criar coisas novas, misturando o que já existe. Um exemplo: Do Yôga surgiu o Pilates, criado por um alemão, com o intuito de desenvolver uma técnica para aprimoramento do corpo e promover uma forma de fisioterapia. Ele desenvolveu todo um sistema, com regras e formas, enfim, pesquisou e criou uma metologia completa. Embora tenha baseado-se no Yôga ele criou algo novo e por isso deu um nome diferente para o seu filho. O que ele inventou era verdadeiramente novo, não era Yôga, não era filosofia, não tem proposta mais ampla do que apenas o próprio corpo. Até ai, ainda vai, se ele criou, que ele dê um nome próprio e não use um nome conhecido apenas para que possa “vender o seu peixe”. No entanto há pouco tempo surgiu uma adaptação chamada Yôgilates . Pasme. Isso mesmo, eles misturaram o Pilates, que surgiu do Yôga com o próprio Yôga novamente. E o que é isso? Sei lá. Nem quem criou sabe. Mas uma coisa sabemos, não é Yôga e não é Pilates, logo não tem os mesmos objetivos que nenhum deles. Não se tem uma comprovação se funciona, se faz bem ou mal a saúde. É apenas algo para o consumismo.
Voltando ao nosso assunto principal. Isso que você imagina não é Yôga, não tem nada a ver com o Yôga. Isso mesmo, você foi enganado. Pior, foi enganado por quem deveria lhe esclarecer. Para completar, esta imagem ficou tão gravada na cabeça das pessoas que os professores que tentam preservar a essência do Yôga tem que lutar muito para conseguir mostrar o que realmente é o Yôga.
Toda vez que falamos com um jornalista interessado em escrever sobre o Yôga, invariavelmente temos um trabalhão para mostrar a ele o que fazemos e como fazemos. A maioria vem com o paradigma vendido por anos a fim dentro do Brasil. Alguns percebem o quanto estavam enganados e por fim escrevem uma boa reportagem. Algo que realmente contribua para o esclarecimento da opinião pública. O duro são aqueles que se condicionam aos velhos paradigmas e por mais que converse com um instrutor formado pela Universidade de Yôga e reconhecido pela União Internacional de Yôga acham que sabem mais e escrevem o que querem.
Então, se Yôga não é nada do que você imaginava, o que é?
O Yôga surgiu a mais de 5000 anos em uma região ao noroeste da atual Índia, foi criado por um povo admirável denominado de Drávida. Daí já tiramos três conclusões;
1) Se surgiu tanto tempo e até hoje existe e vem sendo transmitido de geração em geração, significa que deve ser algo bom, se não fosse já não existiria mais.
2) Deve ser uma das profissões mais antigas, pois sempre existiu um Mestre e um discípulo para que fosse perpetuado. Sempre houveram pessoas que se dedicavam horas para conhecer e transmitir esta herança milenar. Professores que viviam exclusivamente deste nobre magistério.
3) Era voltado para um público jovem. Afinal, qual era a expectativa de vida a quinhentos anos? E a dois mil anos? E a cinco mil anos? Então, os que praticavam eram pessoas jovens.
Uma perguntinha só. Será que naquela época criaram algo tão completo só para diminuir o stress? Ou será que foi para fazer terapia hormonal? Interessante pensar nisso. Você verá que não faz sentido as adaptações que vemos por ai.
O Yôga surgiu muito antes de se formalizar a atual civilização hindu. Por isso, embora tenha passado a fazer parte da cultura do Hinduísmo, não pertence a ela. O Yôga foi incorporado pelos hindus e a partir deles preservado para o resto do mundo. Mesmo assim é importante lembrar que o Yôga absorvido pelos hindus, já era um produto arianizado, ou seja, havia sofrido algumas adaptações pela civilização que invadira a região a mais de 1.500 a.C. Esta civilização fundamentou o movimento cultural chamado Vedismo, que depois se transformou em Brahmanismo e por fim se transformou no Hinduísmo. Muitos elementos desta cultura são baseados na cultura pré-ariana, ou seja, na cultura dravídica. O Yôga é um desses elementos.
O Yôga surgiu como uma forma de ampliar as capacidades humanas. Tanto que Shiva, o criador do Yôga, entra para mitologia com várias facetas, entre elas a de Natarája (Rei do Bailarinos), Pashupatê ( Senhor dos animais), Shankara ( sábio meditante), Rudrá( o destruidor – aquele que destrói para renovar), Gangádhara ( o portador do Ganga – rio sagrado na Índia). Observe que todas elas exaltando um potencial dinâmico, forte dotado de energia e sabedoria. Em toda as literaturas mais antigas o Yôga sempre foi associados com estes três conceitos: força, poder e energia. Algo muito diferente da visão ocidental deturpada.
Muitas definições foram dadas ao Yôga, algumas delas muito pertinentes e que podem contribuir bastante para entender um pouco mais do que seja o Yôga. Uma das mais antigas definições foi amplamente difundida por Patáñjali em seu livro Yôga Sutra. Digo que foi amplamente difundida por ele, pois ele apenas copiou uma definição que já era existente nas Upanishads ( textos antigos da Índia). A definição é:
Yôgash chitta vrtti nirôdhah.
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Existem muitas traduções e interpretações desta frase, a mais clara é :
Yôga é a supressão da instabilidade da consciência.
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Esta definição é bastante sintética e abrange a verdadeira essência do Yôga. Yôga é um método para que se cesse o turbilhão dos pensamentos e permita assim a consciência fluir por outro canal, que não o mental. Logo o objetivo do Yôga é a mudança da amplitude de nossa consciência.
O Mestre DeRose ( codificador mundial do SwáSthya Yôga, o Yôga antigo) tem uma definição que explica ainda mais o que é o Yôga:
Yôga é qualquer metodologia estritamente prática que conduza ao samádhi.
Esta definição é ótima, pois ela abrange ainda mais sobre a essência do Yôga. Primeiro diz que o Yôga pode ser qualquer coisa e então segue definindo limites. Qualquer método, desde que seja prático, ou seja, teoria não é Yôga. Teoria é área das filosofias teóricas, no caso do Yôga mais antigo é o Sámkhya (filosofia especulativa de características naturalistas). Yôga é a prática, é fazer. Para encerrar deixa claro qual o objetivo de qualquer tipo de Yôga, o Samádhi. Samádhi é um estado de consciência, de hiper-consciência. Samádhi não tem uma tradução exata mais pode ser entendido como um estado de auto-conhecimento ou mega-lucidez.
É importante perceber que as duas definições são amplamente compatíveis. Quando se cessa a instabilidade da consciência ( Patáñjali) significa que ela se tornou estável, pura, enfim, está em samádhi.
Estas duas definições marcam a proposta final do Yôga, a meta de nossa filosofia. No entanto para se chegar até lá, uma série de transformações e evolução pessoal ocorrerá.
Estas modificações pessoais são muito importantes. Elas ocorrem em virtude do praticante estar se dedicando a realizar técnicas que atuam sobre o corpo físico, sobre a energia e a vitalidade, estimulam a respiração, refina as emoções, elucida os pensamentos, enfim, mexem com toda a estrutura humana aprimorando sobremaneira a qualidade de vida.
Desde as primeiras práticas e cada vez mais o praticante percebe estas modificações. Todos se admiram com elas, mas apenas alguns decidem se dedicar ainda mais e incorporam o verdadeiro Yôga em sua vida diária. São estes que invariavelmente colherão mais intensamente os aclamados benefícios do Yôga. Assimilam tais benefícios, não pela expectativa de te-los, mas como conseqüência de estarem se dedicando com a finco ao verdadeiro Yôga.
O sentido real do Yôga é percebido quando se começa a incorporá-lo na vida diária. É neste momento que se percebe o quanto as técnicas ampliam seus horizontes de poder, intensifica a saúde e prepara as emoções e a mente para o dia a dia. Ai, com certeza uma série de mudanças ocorrem, mudanças para melhor. Mudanças na maneira de se comportar, de sentir, de pensar, de se relacionar com outras pessoas, mudança na alimentação, nos hábitos e em tudo o mais. É este aprimoramento humano o verdadeiro sentido do Yôga. É esta evolução pessoal a essência do Yôga.
Toda esta mudança, claro, não é algo imposto. É o resultado de uma maior percepção de seu corpo, de uma maior lucidez de sua mente e emoções. Elas ocorrem como resultado natural de se estar dedicando a se conhecer cada dia mais.
Como havia dito, todos se admiram com o Yôga, mas apenas alguns escolhem por incorporá-lo em sua totalidade. Outros apenas optam por executar suas técnicas algumas vezes na semana e se contentam com a sensível melhoria na qualidade de vida.
O mais importante é ter claro para você duas coisas:
1) É necessário fazer uma escolha consciente. Você esta praticando objetivando apenas pequenos benefícios em sua vida? Espera aprender a respirar melhor, trabalhar o corpo e descontrair, mas sem pretender modificações reais? Seu desejo é apenas ter no Yôga um meio para suprir seu emocional que clama por mais qualidade de vida e assim seguir praticando apenas o suficiente para suprimir o déficit energético causado pelos esforços diários?
Ou você deseja ainda mais? Deseja melhorar a qualidade de vida de verdade? Quer se dedicar a ser uma pessoa mais saudável, mais descontraída, mais realizada, enfim mais feliz?
É preciso ter claro isso em sua mente. Você pode escolher se dedicar mais a si mesmo através do Yôga e conseqüentemente colher muito mais ou apenas praticar por praticar.
2) De qualquer forma, o Yôga vai mexer com você. Vai mexer com sua vida diária, com sua saúde, com o seu emocional. Em menor ou maior grau, dependendo do seu empenho, o Yôga irá transformar sua vida. Transformar para melhor.
Agora que você já entendeu um pouco mais do que realmente é o Yôga, dá para entender o quanto as variações que se encontra por ai são simplórias. Simplificar esta nobre arte para apenas um único beneficio é deixar de desfrutar de um banquete para se contentar com as migalhas que caem de baixo da mesa.
No próximo texto vamos conversar sobre o mais antigo tipo de Yôga que existe, o Dakshinacharatántrika-NíríshwaraSámkhya Yôga. Este tipo de Yôga foi resgatado no século passado pelo Mestre DeROSE, que o codificou com o nome de SwáSthya Yôga e este constitui o Yôga mais completo do mundo. Em uma só aula do SwáSthya temos elementos de todos os demais tipos de Yôga.
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