
Este texto foi escrito por Oscar Motomura (www.oscarmotomura.com.br) em prefácio ao livro "A ciência de Leonardo da VInci" do aclamado autor Fritjof Capra. A maneira como ele fala sobre o desperdício de talento humano, sufocado pela estrutura educacional e política é sem dúvida muito interessante e nos faz refletir.
“Ao avançar na leitura e apreciar as realizações de Leonardo [da VInci] na passagem do século XV para o XVI, ocorreu-me recorrentemente a seguinte indagação: hoje, em pleno século XXI, quantos Leonardos temos no mundo? Quem são eles? Onde estão? O que estão fazendo? Quantos deles aplicam conscientemente sua criatividade a objetivos nobres? Quantos se dedicam a objetivos supérfluos, desperdiçando o dom que possuem? E quantos outros dirigem sua genialidade a atividades ligadas ao crime organizado e até a colocam a serviço de guerras? Em suma, o que fazemos com o talento humano? Ao usar a história de Leonardo como referencial para refletir sobre essa questão, nós nos damos conta do quanto precisamos estar atentos, como sociedade, ao mundo que criamos em nosso dia-a-dia.
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Talentos são potencializados por circunstâncias favoráveis. Pais buscam criar melhores condições para que os filhos evoluam continuamente. Mestre e líderes ajudam as pessoas a florecer em uma medida que até pode parecer fora do comum. Mas não seria essa a medida natural e não uma exceção? Parece que é a grande abundância de contextos desfavoráveis, mais do que a falta de circunstâncias construtivas, que limita o florescimento do potencial humano. Grande parte do taleto inerente ao ser humano pode estar sendo abafada pelo processo educacional equivocado que ainda prevalece em nossa sociedade. E também por modelos de organização hierárquicos de comando e controle e a imensa quantidade de normas que cerceiam a inventividade e a engenhosidade naturais do ser humano. Se, por outro lado, atentarmos para a trajetória profissional das pessoas, para a forma como elas buscam a realização no trabalho, perceberemos como a nossa sociedade leva pessoas geniais a desviar seus talentos para finalidades que podemos considerar “não-naturais”, que não só estão em desacordo com a ética e com a busca do bem comum, como podem até mesmo prejudicá-lo e destruí-lo.
Ao ler esta livro e apreciar a “luta”de Leonardo, podemos também compreender como funcionam as forças politicas que muitas vezes abafam os talentos ou os colocam na contramão da ética. Nos tempos atuais, em que o poder econômico fala mais alto, quanto do que Leonardos conscientes criam em várias partes do mundo está sendo abortado por ser percebido como “ameaça” por parte de quem usufrui as vantagens do sistema em vigor?
É muito provável que a história venha sendo pontilhada de casos de grandes inventos que foram engavetados porque afetariam a estrutura econômica vigente prejudicariam aqueles que mais se beneficiam dela. Essas são algumas das distorções do dia de hoje...
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Acredito firmemente que este salto [na evolução humana] aconteça são grandes. Mas é preciso assegurar que os Leonardos de hoje floresçam. Que tenham espaço. Que não sejam abafados pelo sistema político-econômico-social que anseia sobreviver. Como líderes, podemos ajudar significativamente a abrir os caminhos. Como cidadãos conscientes também. Nosso poder, neste mundo cada vez mais interconectado, cresce a cada dia. É clara a visão de que a genialidade existente no planeta poderá ser efetivamente redirecionada para solução de nossos problemas maiores. Talvez aqui esteja nosso grande teste como espécie. Como reverter o processo de amplicação, muitas vezes irresponsável, do potencial humano - e que vem sendo alavancado pelas tecnologias que criamos em um ritmo cada vez mais acelerado - e direcioná-lo para propósitos nobres e para o benefício de todos no planeta? Essa parece ser a equação que representa o nosso maior desafio. Um desafio do qual Leonardo não se esquivaria. ...”
Oscar Motomura
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